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Jubileu de Diamante de Padre José Jésus Gomes de Araújo na Catedral

Postado por Pe Moacyr Ramos Nogueira em 23/dez/2017 - Sem Comentários

Aconteceu na noite de sexta-feira, 22 de dezembro, às 19h na Catedral de São João Batista em Caratinga a missa de ação de graças pelo Jubileu de Diamante Sacerdotal do Pe. José Jésus Gomes de Araújo.  A Santa missa foi presidida pelo bispo diocesano Dom Emanuel Messias de Oliveira e concelebrada pelos padres:  José Raul, Toninho, Júlio César, Agrimaldo, Moacir, Joaquim Calais, Márcio, o jubilando José Jésus e Mons. Raul. Tudo preparado com carinho e amor pelos paroquianos da Catedral.

Segue na integra a homilia de Monsenhor Raul Motta de Oliveira

Jubileu de Diamante de Padre José Jésus Gomes de Araújo – (Caratinga, 22/12/2017)

 Pe. José Jésus Gomes de Araújo comemora hoje os sessenta anos de sua Ordenação sacerdotal, acontecida nesta Catedral de São João Batista, dia 22 de dezembro de 1957, dez dias depois da chegada de Dom José Eugênio Corrêa à nossa Diocese.

Com Pe. Jésus, foram ordenados também Pe. Odilon Sabino do Carmo, já falecido; e Pe. Antônio Fuentes Álvarez, espanhol, que, após 5 anos, mudou-se para os Estados Unidos e não nos deu mais notícias, não sabendo nós se está vivo.

No seu primeiro ano de padre, em 1958, Pe. Jésus exerceu o ministério, como Professor e Ecônomo do nosso recém criado Seminário Diocesano Nª Sª do Rosário, nesse 1º ano de seu funcionamento, no Palácio Episcopal. Escreveu a história do Seminário, daquele seu primeiro ano.

Em 1959, foi nomeado Vigário Cooperador de Tarumirim e Administrador Paroquial de Sobrália, onde residiu cerca de 4 anos. Em seguida, foi Pároco de Iapu e de Vermelho Velho.

Preso pela Ditadura

Em 1964, quando era pároco de Vermelho Velho, foi preso pela Ditadura Militar, tendo sido acusado de padre comunista. Chamaram-no para atender um doente. Estavam de Jipe. No caminho, lhe deram voz de prisão e o levaram para o Quartel de Valadares, onde ficou dois dias incomunicável. Ninguém dava notícia dele. Dom Hermínio, bispo de Valadares, ficou sabendo, através de um soldado, e conseguiu libertá-lo.

O Clero de Caratinga, dia 15/4/1964, enviou ao Diretor do Departamento de Vigilância Social, que era o órgão repressivo da Ditadura, um Ofício a favor do Pe. Jésus. Vale a pena ouvirmos alguns de seus parágrafos, dizendo-nos quem era o Pe. Jésus.

“Sacerdote jovem, Pe. Jésus se lançou de corpo e alma ao trabalho de sua paróquia de Sobrália,   com o fim de levar o conforto, não só espiritual, mas até material, para o rebanho a ele confiado. Prova disso são as várias instituições fundadas por ele na Paróquia, e que vinham funcionando com regularidade, tais como a “Sociedade dos Amigos de Sobrália”, a “Ação Social Paroquial”, o “Escritório Paroquial da Cáritas”, uma rede de Escolas Rurais Paroquiais e até um Ginásio!”

A CNBB, em 1962, atendendo a um apelo do Papa João XXIII, lançou o Plano de Emergência, insistindo na Pastoral Rural e na sindicalização rural. Na eleição da primeira diretoria do Sindicato de sua Paróquia, Pe. Jésus conseguiu derrotar espetacularmente a chapa comunista. Tanto ia bem o seu Sindicato, que Dom José Eugênio não duvidou em nomear Pe. Jésus como o orientador diocesano para a fundação de outros sindicatos na Diocese de Caratinga.

Por causa da sua atuação enérgica e, às vezes, um tanto rústica, Pe. Jésus comprou algumas inimizades, como a de um chefe político e a do delegado de Polícia. Embora tivesse a população de Sobrália em peso a seu favor, Sr. Bispo achou melhor transferi-lo da Paróquia. Tendo acontecido o Golpe Militar de 1964, por vingança de seus desafetos, ele foi denunciado, como comunista e fundador de sindicato comunista.

Os Padres de Caratinga pedem ainda que não continuem presos os elementos do Sindicato de Sobrália, católicos e chefes de família exemplares, cujo fito era, seguindo Padre Jésus, promover, por meios democráticos e legais, a elevação do nível do trabalhador rural.”

Abrindo a lista de Assinaturas do Clero de Caratinga, estava o nosso Vigário Geral, Mons. Aristides Marques da Rocha. Dos 16 Padres que assinaram, estamos vivos, se não me engano,  Frei Samuel Batistini e eu.

Na Arquidiocese de Belo Horizonte

Libertado, Pe. Jésus passou uns tempos em Caratinga e Iapu. Em 1965, coordenou a festa do Cinquentenário da Diocese de Caratinga. Dom Corrêa achou que não era bom que ele ficasse por aqui, por causa das possíveis perseguições da Ditadura. Deixou Iapu e foi fazer o curso do ISPAC (Instituto de Pastoral Catequética), no Rio de Janeiro (1967). E, por sugestão de Dom Corrêa, em 1968 foi para Belo Horizonte. Dom João Resende Costa o acolheu e lhe deu a paróquia de Santa Inês. Trabalhou ali durante 12 anos, até que, em 1980, por causa de uma denúncia caluniosa, foi-lhe tirada a Paróquia.

Concelebrei com ele sua última Missa, na Paróquia de Santa Inês, no domingo, dia 10 de fevereiro de 1980. Fiz a homilia e anunciei que, no domingo seguinte, Pe. Jésus não estaria mais lá. Na verdade, ele não deixou o ministério. Ficou sem função na Igreja. E, revoltado, não procurou mais. Foi morar, muitos anos, com um irmão dele. E foi lecionar: primeiro na Faculdade de Ponte Nova. Depois, conseguiu na Faculdade Milton Campos, em BH, até se aposentar.

Volta ao Ministério

De vez em quando, Padre Jésus vinha a Cornélio Alves, Paróquia de Vermelho Velho, onde residem vários de seus familiares.

Pe. Geziel, pároco de Vermelho Novo e Administrador Paroquial de Vermelho Velho, estava reconstruindo a igreja de São Vicente da Estrela. Essa igreja desmoronou, quando Pe. Jésus era o vigário de Vermelho Velho. Ele nos contou que, no dia do Natal, tinha celebrado ali, com a igreja lotada. E, à noite, ela cai ruidosamente, ficando em pé só a parede da frente. Essa igreja nunca foi reconstruída. Pe. Geziel fez um projeto de reconstruí-la. E pediu ao Pe. Jésus que, nas férias, quando costumava vir por aqui, o ajudasse a fazer a campanha para sua reconstrução. Foi a hora da graça. Pe. Jésus achou que estava na hora de voltar a exercer o ministério.

Por e-mail, contou-me que estava resolvido a voltar ao ministério. Não havia nenhum problema que o impedisse. Participava normalmente da Santa Missa e dos Sacramentos, como leigo. Desejaria morrer exercendo o ministério sacerdotal.

Convidei-o e ele veio aqui para o Seminário de Caratinga, onde passamos uns dias rezando a Liturgia das Horas juntos, para ele aprender de novo a rezar o Breviário. Ficou admirado com a beleza da tradução brasileira do Ofício, com os salmos todos metrificados. E celebramos muitas “missas secas” (sem a consagração), treinando-se de novo a celebrar a Missa.

Dia 24 de janeiro de 2013, conversou com Dom Emanuel, estando eu presente. Dom Emanuel, após ouvir a sua história, o acolheu carinhosamente e lhe deu o Uso de Ordem na Diocese.

Primeira Missa

No dia seguinte, 25 de janeiro de 2013, festa da Conversão de São Paulo, Pe. José Jésus celebrou a Missa no Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário e São José, aqui em Caratinga, no Bairro das Graças, sendo eu concelebrante. Na hora da homilia, historiei, rapidamente, sua vida e contei, concluindo: “No domingo, dia 10 de fevereiro de 1980, eu concelebrei com Pe. Jésus, na igreja matriz de Santa Inês, em BH. Foi a última missa que ele celebrou. Hoje, quase 33 anos depois, ele celebra aqui, novamente, a Santa Eucaristia. Louvado seja Deus!”

Padre Jésus hoje

Padre Jésus é um padre muito reto, dedicado, estudioso, alegre, apaixonado pela História. Muito idealista.

Depois de recebido o Uso de Ordens, tem vindo a Caratinga com certa frequência. Tem participado de reuniões e do Retiro do Clero de Caratinga. Mês passado, foi ao Retiro das Rosas.

Tendo conseguido também de Dom Walmor o Uso de Ordens em Belo Horizonte, foi ficando por lá, sendo muito solicitado para ajudar os padres da Capital, especialmente aos domingos. Todas as Terças Feiras, celebra na Matriz da sua antiga paróquia de Santa Inês, hoje Paróquia do Imaculado Coração de Maria.

Seu Jubileu de Diamante

Escrevi-lhe, consultando sobre a sua possível vinda a Caratinga, para celebrar seu Jubileu Sacerdotal de Diamante. Respondeu-me negativamente, explicando: “Alguém me perguntou quantos anos eu tenho de Padre. Respondi-lhe: sessenta! E essa pessoa comentou: Que beleza! Sessenta anos servindo a Deus! Fiquei angustiado: não servi a Deus sessenta anos no ministério! Não posso praticar tal hipocrisia. O que espero é que meu Senhor tenha misericórdia de mim e, se for sua vontade, me conceda, ao menos, igualar o tempo de ministério sacerdotal com o tempo fora.  Pela minha contagem, tenho 27 anos de exercício do ministério e 33 sem exercê-lo.

Na Reunião da Forania de Caratinga, com 16 padres e nosso bispo Dom Emanuel, quando se tratou do calendário pastoral deste fim de ano, Pe. Moacir colocou a Missa do dia 22 de dezembro, do Jubileu de Diamante do Pe. Jésus. Então eu apresentei a sua justificativa para não vir celebrá-la conosco. Mas a turma não aceitou. A começar do Sr. Bispo. Dia 22 de dezembro não deixa de ser o 60º aniversário do dia da sua Ordenação Sacerdotal. Merece ser celebrado. E me pediram para insistir com ele. Respondeu-me:

“Aceito com alegria, para que meus irmãos no sacerdócio e os descendentes daqueles que estiveram presentes à minha ordenação, e alguns sobreviventes juntem-se a mim (e solta uma frase clássica de Virgílio, no poema “Eneida”: “rari nantes in gúrgite vasto!”, ou seja: “aparecem raros nadadores, no vasto abismo”), quer dizer, possam também estar conosco, aqui, hoje, alguns raros sobreviventes daquela geração, para agradecermos a Deus e à Mãe Maria sua grande misericórdia para comigo. Quero fazer alguns pedidos. Nenhum discurso: não escuto à distância, e o som de microfone só faz barulho em meus pobres ouvidos, nada entendo. Não pregarei. Meu desejo é, pois, uma celebração simples. No dia seguinte, sábado, gostaria de celebrar na igreja de Nossa Senhora da Conceição. Foi lá que celebrei minha primeira missa.”

Magníficat!

Nesta reta final do Tempo do Advento, dois cânticos a Liturgia de hoje nos apresentou: o Cântico de Ana e o de Maria. Ambos, louvando e agradecendo a Deus pelas maravilhas nelas realizadas.

É o que fazemos agora, nesta Eucaristia do 60º aniversário sacerdotal de Pe. Jésus.

Queremos cantar, com Maria Santíssima, dando louvores a Deus: Porque o Senhor olhou para a humildade deste seu servo, Padre Jésus!

Queremos cantar com Maria Santíssima, porque o nome do Senhor é Santo! E sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem!

Queremos cantar, agradecendo muito a Deus, pelas maravilhas por Ele realizadas na vida de Padre Jésus, durante estes sessenta anos de vida sacerdotal!

E supliquemos ao Sumo Sacerdote, Nosso Senhor Jesus Cristo, continuar concedendo ao Pe. Jésus a imensa graça de estar participando do seu Eterno Sacerdócio, ainda por muitos e muitos anos, neste mundo de Deus.

Com a bênção e a proteção da Virgem Maria, Mãe de Jesus e nossa, todos nós, seus filhos e filhas, aqui reunidos, louvamos e bendizemos ao Senhor, por este sexagésimo aniversário da Ordenação Sacerdotal do nosso querido Padre José Jésus Gomes de Araújo! Magníficat ánima mea Dóminum! A minha alma engrandece o Senhor! Amém!

Mons. Raul Motta de Oliveira – Pároco emérito da Catedral